domingo, 2 de maio de 2010

Conflitos no mundo contemporâneo

Apesar de certa ilusão dos defensores do processo de globalização de que a queda de barreiras econômicas entre os países e a democratização da informação poderiam não apenas aproximar povos e culturas, como também diminuir as tensões históricas causadas por questões culturais e territoriais, criando uma sensação de cidadania mundializada, a prática nos mostra o contrário.
Nunca os aspectos locais e territoriais dos povos tiveram tanta evidência e, de fato, o papel positivo da globalização foi o de indiretamente nos mostrar que não é possível ser cidadão do mundo sem que se tenha cidadania local.
Muitos dos problemas ligados aos conflitos originados por questões étnicas e religiosas em todo o mundo têm, historicamente, seu foco principal na disputa pelo espaço territorial e político.
Em 1945 (final da Segunda Guerra Mundi¬al), as potências coloniais europeias possuíam imensos impérios na África e na Ásia, cuja ori¬gem remontava, em alguns casos, ao século
XVI. Em menos de vinte anos, a maioria das colônias conseguiram sua independência e os impérios coloniais desapareceram. Esse movi¬mento emancipador recebeu o nome de descolonização.
Os novos Estados (países) nascidos desse processo se construíram sobre as fronteiras das antigas colônias, seguindo os critérios e inte¬resses dos colonizadores. Essas fronteiras eram artificiais e não correspondiam aos Limi¬tes entre as diferentes etnias e Línguas.
Enquanto muitos Estados juntaram etnias rivais, com línguas e tradições díspares, outros
povos foram divididos, formando parte de Estados diferentes.
A contestação dos limites fronteiriços foi a origem de numerosos conflitos entre Estados (Índia e Paquistão, Eritréia e Etiópia, Chade e Líbia, Iraque e Irã etc.).
Essas rivalidades provocaram também um aumento dos gastos militares e do poder dos exércitos, em detrimento de gastos sociais e da democratização dos Estados, gerando sistemas políticos autoritários.
A desestruturação das sociedades do Terceiro ¬Mundo é caracterizada pela escassa condição social como conseqüência da existência de parti¬cularidades raciais, étnicas, Lingüísticas e reli-giosas geralmente desrespeitadas, além de uma distribuição de renda nitidamente desigual.

etnias — grupos de indivíduos biológica e culturalmente homogêne¬os, com os mesmos costumes, a mesma língua e a mesma cultura.

A imensa maioria da população vive na po¬breza ou miséria, enquanto minorias privilegia¬das (proprietários agrícolas, grandes comercian¬tes, altos funcionários etc.) vivem na opulên¬cia. A classe média, que é majoritária nas cha¬madas sociedades ocidentais do Primeiro Mundo é, aí, praticamente inexistente.
Essas grandes desigualdades geram uma violên¬cia que parece ser permanente no Terceiro Mundo e que está presente sobretudo nas cidades.
Nelas existe um elevado índice de desem¬prego e desaparecem os vínculos de solidarieda-de familiar tradicional, sem que tenham sido substituídos por garantias sociais modernas, como: seguro-desemprego, assistência médica, escolarização obrigatória etc.
A miséria e a ausência de democracia con¬duzem, geralmente, à formação de grupos ar-mados (guerrilhas) que lutam para derrubar regimes políticos autoritários e que pregam, ge¬ralmente, a transformação revolucionária da so¬ciedade, almejando uma distribuição eqüitativa das riquezas. Uma vez no poder, o discurso an¬terior é, muitas vezes, substituído por práticas igualmente autoritárias.
A multiplicação dos conflitos internos é uma característica marcante da última década do século XX.
A desintegração dos Estados socialistas principalmente a União Soviética (URSS) e a Iugoslávia — fez renascer rivalidades étnicas e re¬ligiosas que haviam sido congeladas por regimes totalitários.
Confrontos herdados da Guerra Fria, como a guerra civil em Angola (ex-colônia portuguesa), também adentram o século XXI, mas essa é uma guerra política em que se opõem idéias marxis¬tas e movimentos anticomunistas.

TIPOS DE CONFLITOS

De maneira geral, os conflitos são classifi¬cados em quatro categorias, de acordo com as forças em litígio.
A primeira envolve dois ou mais Estados - guerra entre Estados — embate entre exér-citos nacionais regulares.
Exemplo:
• Disputa (desde a descolonização britâni¬ca) entre Índia — de maioria hindu — e Paquis-tão — muçulmano —, duas potências nucleares, pela posse da região da Caxemira, cuja popula¬ção local é de maioria muçulmana.
A segunda caracteriza a guerra civil ou guerrilha disputa interna em que movimen¬tos armados ambicionam derrubar o governo de um determinado país, para mudança de regime.
Exemplos:
• Conflito com as Forças Armadas Revoluci¬onárias da Colômbia (Farc’s), que controlam uma área desmilitarizada de 42 mil km2 no ter¬ritório colombiano. Essa guerrilha de esquerda associada ao poder paralelo criado pelo narcotráfico representam os maiores desafios a serem enfrentados pela população colombiana. Insta¬lou-se uma guerra civil no país. A crise institu¬cional que caracteriza a luta entre poderes, a corrupção do serviço público e a incapacidade de o governo solucionar essas questões mistu¬ram-se num dos conflitos mais duradouros e sangrentos da América Latina e que pode sub¬meter o país à intervenção externa.
• A reivindicação pela criação de um Estado teocrático na Argélia, pelas guerrilhas fundamentalistas Frente Islâmica de Salvação (FIS) e Grupo Islâmico Armado (GIA).
• A luta do Exército Zapatista de Libertação Nacional — EZLN — contra a política neoliberal do governo mexicano, que exclui e marginaliza a população pobre, não considerando em seu planejamento econômico as necessidades delas e as grandes desigualdades sociais do país. O EZLN controla o sul do país, particularmente o Departamento de Chiapas, a porção mais pobre do território do México.
Ainda dentro desta categoria, há os con¬flitos com intensa conotação étnica ou religiosa.
Exemplos:
• A guerra civil no Afeganistão, que opõe fundamentalistas muçulmanos da milícia Taleban a grupos islâmicos de outras etnias (tad¬jique, uzbeque e hazará).
• Tensão de origem religiosa no Sri Lanka, onde tâmeis (hinduístas) e cingaleses (budis¬tas) estão em luta desde a década de 1980 (século XX).
• O terrorismo islâmico no Egito. Fundamentalistas muçulmanos que querem instituir uma teocracia islâmica no país têm realizado vários atentados terroristas, a partir da década
de 1980 (século XX), com ataques a turistas e a monumentos históricos.
• Os conflitos resultantes da antiga rivali¬dade entre as etnias tutsi e hutu, na região dos Grandes Lagos Africanos, que deixaram 1 milhão de mortos principalmente em Ruanda e Burundi.

A terceira envolve o separatismo decor¬rente de ocupação estrangeira — confronto provocado por invasão militar externa.
Exemplos:
• A reivindicação dos palestinos pelo reco¬nhecimento de um Estado independente nos ter¬ritórios ocupados por Israel em 1967 — Faixa de Gaza e Cisjordânia (conflito árabe-israelense, em negociação de paz).
• Conflito separatista em Timor Leste, ex-colônia portuguesa de maioria católica anexa¬da pela Indonésia (de maioria islâmica) em 1975. (Em 1999, o Timor Leste conseguiu a in¬dependência, graças à mediação da ONU, dos EUA e de Portugal junto ao governo da Indo¬nésia.)
A quarta caracteriza o separatismo no in¬terior de um Estado — choque entre forças oficiais e movimentos internos, em geral li¬gados a minorias étnicas ou religiosas, que têm como objetivo a formação de Estados independentes.
Exemplo:
• caso do Exército Republicano Irlandês (IRA), partidário da autonomia dos católicos, grupo minonitánio na Irlanda do Norte, uma província do Reino Unido (de maioria protes¬tante). Acordo de paz assinado em 1998.
• A questão dos bascos na Espanha, movimento nacionalistas pela independência do País Basco – encravado no norte da Espanha e a s sudoeste da França – que tem uma cultura diferenciada sobretudo pela língua o Euskara, não latina. O grupo separatista ETA (Pátria Basca e Liberdade) abala a nação espanhola com violentos atentados terroristas.
• As invasões das forças russas na Repúbli¬ca Separatista da Tchetchênia. Algumas das dezenas de nacionalidades que compõem a Rússia começaram a se revoltar contra o governo central de Moscou, após a desintegração da URSS, em 1991, declarando-se independentes. Na Tchetchênia e depois no Daguestão – pequena República na região do Cáucaso - milicianos mulsumanos lutam pela autonomia, colocando em xeque a capa- cidade da Rússia, tanto do ponto de vista político como do ponto de vista militar, de resolver seus assuntos internos. A repressão do exército russo é intensa.
• As guerras resultantes do processo de dissolução da Iugoslávia, país que já ocupou boa parte da península balcânica, estado multiétnico, marcado pela hegemonia sérvia contra os povos da região: estovenos, croatas, bósnio-muçulmanos, montenegninos, mace¬dônios, albaneses e húngaros. O conflito mais violento foi na Bósnia-Herzegóvina (1992 a 1995), opondo sérvios a uma aliança muçulma¬na-croata. Os sérvios praticaram a chamada “limpeza étnica” como estratégia de guerra : expulsaram grupos rivais das áreas sob sua ocupação, chacinaram civis e estabeleceram campos de concentração. Croatas e bósnio-mu¬çulmanos, em menor escala, também pratica¬ram massacres. A prática criminosa da “Limpeza étnica” estendeu-se a Kosovo — província do sul do país —, cuja população (basicamente albanesa) foi violentada, assassinada e siste¬maticamente expulsa pelo exército da Iugoslá¬via. Apesar de não ter tido a aprovação unânime da comunidade internacional, a OTAN interferiu no conflito, realizando bombardeios con¬tra a Iugoslávia e contra as tropas sérvias em Kosovo, em defesa da integridade da popula¬ção Local. Essa ação militar possibilitou aos albaneses o retorno à província. Os kosovares conseguiram, assim, autonomia política em re¬lação a Belgrado, mas mantêm vínculos econô¬micos com a Iugoslávia.
Mais recentemente surgiu um tipo de con¬flito inédito no mundo, caracterizado pela luta contra o terrorismo internacional. Nasceu em virtude dos trágicos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, em que os EUA foram 1 alvo de ação terrorista comandada por Osama bin Laden, milionário de origem saudita.
Protegido pela milícia Taleban que até então controlava o Afeganistão, Osama Bin Laden apregoou a Luta camuflada contra os EUA, con¬siderado por ele o grande causador da miséria que assola os países que compõem o mundo islâmico. Além de financiar o treinamento de terroristas, por meio da organização AI Qaeda, procurou dar à luta, contra o que chamou de opressão americana, conotação de Guerra San¬ta - Jihad - conclamando todo o mundo islâmico a apoiá-lo.
A resposta americana foi imediata. Organi¬zou ataques às bases do Taleban, em território afegão, primeiramente com bombardeios aéreos e, depois, com tropas terrestres especiais. Essa guerra, por suas características geopolíticas peculiares, tem sido chamada de “Guerra Sem Li¬mites”, já que sua ação não está geograficamente circunscrita a um espaço territorial delimitado.
Essa guerra no Afeganistão - a primeira do século XXI - no entanto, também atende a interesses comerciais. Veja:

Bin Laden? Não. Eurásia é o nome do jogo.
O corredor de transporte Europa —Cáucaso — Ásia Central é um complexo rodo-ferroviário destinado a ligar a Euro¬pa mediterrânea até a China, passando necessariamente pelo norte do Afeganis¬tão, Ásia Central e Turquia. A construção desse imenso complexo — com fundos da União Européia (UE) e do Banco para o Desenvolvimento da Ásia (BDA) * será combinada com a instalação de oleodutos que vão abastecer o mercado ocidental.
Alguns números ajudam a ilustrar o que está em jogo. Apenas os cinco países da bacia do Cáspio — Azerbaijão, Caza¬quistão, Irã, Rússia e Turcomenistão — pos¬suem reservas estimadas em 200 bilhões de barris de petróleo e um volume comparável de gás. Três deles — Azerbaijão, Caza¬quistão e Turcomenistão — contêm mais pe¬tróleo e gás do que o Golfo Pérsico. As cinco maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos (Chevron, Conoco, Texaco, Mobil Oíl e Unocal) concluíram ou estão concluindo uma série de acordos bilionários com esses países (exceto o Irã) para explorar suas reservas.

(Baseado em texto de José Arbex Jr. in: Jornal do Sinpro/SP, out./nov. de 2001)

8 comentários:

  1. Nossa o texto é muito bom
    possui tudo em um local não é necessário ficar proucurando em site e mais sites.

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  2. nossa vc tem talento se todos osd sites foose igual esse naum presisa fc procurandos em sites e sites

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  3. Muito bom, esse texto ajudou muito na minha pesquisa...

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