domingo, 2 de maio de 2010

Guerra Fria

Quando berlinenses orientais e ocidentais começaram a derrubar, na madrugada de 9 de novembro de 1989, o maior símbolo da divisão do mundo em blocos, o Muro de Berlim, estavam decretando na prática o fim do longo período de conflitos no eixo Leste-Oeste, a Guerra Fria. Durante mais de quatro décadas este conflito silencioso colocou o mundo sob o risco de uma nova guerra em função das tensas relações entre dois blocos liderados por potências que se aliaram para derrubar o nazi-fascismo durante a Segunda Guerra Mundial: a União Soviética comunista e os Estados Unidos capitalista.
A Guerra Fria começou antes mesmo que acabasse a própria Segunda Guerra. Em maio de 1945, quando desmoronava o sonho ensandecido de Adolf Hitler diante do cerco das tropas aliadas a uma Berlim semi destruída, as relações entre os Estados Unidos e a União Soviética já adquiriam contornos de uma queda-de-braço onde cada um pretendia exibir sua força por meio da influência geopolítica que exercia. Na Conferência de Potsdam, na Alemanha, entre julho e agosto de 1945, o americano Harry Truman e o soviético Joseph Stálin lotearam a Europa sob áreas de influência capitalista e comunista, deflagrando a série de conflitos de interesse que se acentuaram ao longo das décadas seguintes. A parte central e a oriental do continente formou o bloco comunista. A parte ocidental ficou sob a influência americana. A linha divisória do espólio cortava toda a Alemanha e separava Berlim em duas.
O primeiro grande lance da Guerra Fria se deu em março de 1946, quando o primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, fez um discurso nos Estados Unidos e usou pela primeira vez a expressão “Cortina de Ferro” para referir-se à fronteira entre os blocos europeus ocidental e oriental do pós-guerra. Mas as relações já ruins entre Estados Unidos e União Soviética entraram em ritmo de franca deterioração em julho de 1947, quando o general americano George Marshall anunciou o plano destinado a enviar ajuda econômica aos países da Europa Ocidental arrasados pela Segunda Guerra. No dia 24 de junho de 1948 a crise se acirrou: em represália ao Plano Marshall, que, entre outros aspectos, impôs a unificação monetária na Alemanha ocidental, o líder soviético Joseph Stálin ordenou o bloqueio de Berlim, fechando as estradas que ligavam a cidade à Europa Ocidental. A resposta dos Estados Unidos ao bloqueio soviético demorou apenas dois dias: em 26 de junho começou a funcionar a ponte aérea de alimentos e remédios para Berlim. O episódio só foi resolvido em 12 de maio de 1949, quando o bloqueio soviético à antiga capital alemã foi suspenso.
O primeiro entrevero no eixo Leste-Oeste—provocado pela proteção de áreas de influência -- foi um argumento decisivo para a formação, em 4 de abril de 1949, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), coalizão de defesa integrada inicialmente por 12 países. Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Itália, Dinamarca, Noruega, Islândia e Portugal assinaram o documento de criação da Otan, elaborado em cima de um princípio básico: “O ataque a um país membro é um ataque a todos”.
A década de 40 terminou com o redesenho definitivo da Alemanha. Nas zonas ainda ocupadas por tropas dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França nasceu, no dia 23 de maio de 1949, a República Federal da Alemanha, Alemanha Ocidental, que passou a ter em Bonn sua capital. A reação soviética viria menos de cinco meses depois. No dia 7 de outubro Joseph Stálin fez nascer a República Democrática Alemã, Alemanha Oriental, governada pelo Partido Comunista Socialista Unitário. No dia 21 de novembro de 1949, as potências ocidentais concederam soberania limitada à Alemanha Ocidental—o país continuou proibido de ter suas próprias forças armadas.
A década de 50 foi marcada pela primeira tentativa de aliviar as tensões nas relações leste-oeste. Embora a União Soviética tenha dado, em 14 de maio de 1955, uma resposta à formação da Otan, com a criação de uma aliança militar que reuniu URSS, Checoslováquia, Hungria, Polônia, Romênia, Bulgária e Albânia, os dois países que polarizavam o jogo de forças da política internacional discutiram pela primeira vez suas diferenças em julho, em Genebra. Uma aparente evolução ocorreria no ano seguinte, com a morte de Joseph Stálin e a posse de Nikita Krushev como chefe de governo da União Soviética. Durante a realização do 20° Congresso do Partido Soviético, Krushev proclamou a “desestalinização” do regime, decisão que foi vista no Ocidente como o início de um processo de democratização. O novo líder soviético chegou a denunciar uma série de crimes políticos praticados por Stálin durante seus 29 anos de governo.
Foi um erro de enfoque dos Estados Unidos e de seus parceiros reunidos em torno da Otan. Em novembro de 1957, Krushev se encarregaria de demonstrar que o regime continuava atuando duramente para manter integradas suas fronteiras, e que a “desestalinização” era apenas um ajuste de contas interno. Tanques soviéticos reprimiram uma tentativa de levante na Hungria, em 4 de novembro de 1956. A rápida e violenta intervenção do Exército Vermelho revelou uma das faces da Guerra Fria: o intervencionismo era tolerado por ambos os lados, desde que restrito às áreas sob influência de cada um.
Abril de 1961 foi um mês crítico para as desgastadas relações entre as duas potências. Os Estados Unidos tentaram invadir Cuba sob o argumento de que o regime comunista comandado por Fidel Castro desafiava o domínio político e militar americano na América Central. No dia 17 de abril cerca de 1.500 exilados cubanos apoiados pela CIA (o Serviço de Inteligência dos EUA), invadiram a Baía dos Porcos, ao sul da ilha. A aventura terminaria em menos de três dias, com a prisão de quase todos os invasores, o fortalecimento do regime de Fidel e uma derrota política e diplomática que os Estados Unidos amargariam pelas décadas seguintes.
O dia 13 de agosto de 1961 foi um marco na queda-de-braço das duas potências. O êxodo de alemães em direção ao lado ocidental -- 2,6 milhões de pessoas até então --, que arranhava a imagem do regime do leste europeu, levou à criação do maior monumento da Guerra Fria: o Muro de Berlim, que separou as regiões ocidental e oriental da mais nevrálgica cidade da Alemanha. A tensão atingiu níveis alarmantes em outubro do mesmo ano, quando tanques soviéticos e americanos ficaram frente a frente no posto militar fronteiriço de Charlie.
Em 1962, os soviéticos reagiriam à frustrada tentativa de invasão de Cuba pelos Estados Unidos pelo forte apelo das armas nucleares. Mísseis de médio alcance foram instalados na ilha, o que novamente elevou a temperatura das relações entre as duas potências. Depois de tensas negociações, em um clima que chegou a apontar para a deflagração de um confronto em alguns momentos, a União Soviética aceitou retirar as armas de Cuba. O caso dos mísseis de Cuba teve pelo menos um resultado prático: no ano seguinte, Estados Unidos, Grã-Bretanha e União Soviética assinaram um acordo pelo qual se comprometiam a não realizar testes com artefatos nucleares na atmosfera, no mar e no espaço. Um lance episódico, entretanto, já que uma das consequências da Guerra Fria foi a aceleração da corrida armamentista nuclear, vista pelas duas superpotências como a maneira mais efetiva de garantir seus domínios.
Em agosto de 1968, a União Soviética mais uma vez usou a força para garantir seu domínio no Leste Europeu: tanques de cinco países do Pacto de Varsóvia esmagaram o movimento que ficou conhecido como Primavera de Praga e que propunha reformas liberalizantes no país, sob o governo de Alexander Dubcek. O episódio revelou que a aliança militar do Leste tinha múltiplas utilidades: não existia somente para se contrapor militarmente às forças do Ocidente representadas pela Otan, mas também para garantir a integridade do bloco comunista europeu.
Foi na década de 70 que uma sucessão de fatos provocou as primeiras distensões na Guerra Fria. No dia 3 de setembro de 1971 -- depois de uma visita, no ano anterior, do chanceler alemão ocidental, Willy Brandt, à Alemanha Oriental, onde defendeu a existência de uma só nação germânica, apesar dos dois estados --, um acordo entre EUA, URSS, França e Grã-Bretanha permitiu a ampliação de contatos entre o lado oriental da Alemanha e o enclave ocidental de Berlim. Foi o primeiro passo para que as duas Alemanhas estabelecessem relações diplomáticas no dia 21 de dezembro do ano seguinte, depois de quase duas décadas de hostilidades.
Em 1979, a União Soviética daria o último lance importante no complexo jogo da Guerra Fria. Invadiu o Afeganistão para garantir a permanência do regime pró-Moscou instalado em Cabul após um golpe de estado. Os soviéticos foram rechaçados em uma sangrenta e arrastada guerrilha colocada em prática por muçulmanos financiados pelos Estados Unidos. Retiraram-se do país apenas dez anos depois, contabilizando enormes perdas, deixando o governo nas mãos da guerrilha muçulmana, que depôs o regime simpatizante do comunismo.
No dia 9 de novembro de 1989, a permissão concedida pelo governo alemão oriental para que cidadãos pudessem passar para o lado ocidental da cidade abriria o caminho para a reunificação da Alemanha, a revolução democrática no Leste Europeu, e consequentemente para o fim da Guerra Fria. Na histórica madrugada que se seguiu, num movimento espontâneo iniciado por berlinenses do lado ocidental da cidade, o Muro começou a ser demolido.
Estava encerrado um aterrorizante capítulo da história moderna da humanidade. O de uma guerra nem sempre silenciosa (bombas explodiam em campos de batalha distantes da Europa), nem sempre fria, como o nome fazia supor (na crise dos mísseis em Cuba faltou pouco para que o planeta explodisse pela força do poderio nuclear), e que só terminou de fato quando um dos adversários deixou de existir.



A Guerra Fria
Por ANTÔNIO CABRAL

O mundo esperava a paz, depois da matança e da destruição da Segunda Guerra Mundial. Mas o que veio foi o que pode ser chamado de um estado de “não-guerra” entre as potências aliadas que derrotaram a Alemanha nazista, os Estados Unidos e a União Soviética. As rivalidades estratégicas, econômicas e ideológicas que colocaram de um lado os EUA e seus aliados, e, de outro, a URSS, com seus protegidos, eram grandes demais para que uma paz verdadeira se concretizasse. E nos anos que se seguiram ao fim da guerra, em 1945, prevaleceu o que um financista americano, Bernard Baruch, na época batizou de Guerra Fria entre os dois gigantes armados até os dentes. Fria porque as armas não eram usadas. Mas ameaçadora, porque poderia se transformar a qualquer momento em confronto “quente” entre as grandes potências. Na verdade, muitas guerras regionais “quentes”, causadoras de centenas de milhares de mortes, foram travadas em meio a esse quadro de rivalidade entre os dois blocos.
Não faltariam armas, e muitíssimo mais poderosas que as usadas na Segunda Guerra, para transformar essa Guerra Fria entre as potências em destruição da própria civilização. EUA e URSS entraram numa corrida para criar arsenais de armas nucleares e mísseis intercontinentais, com ogivas capazes de pulverizar cidades em minutos e matar não milhares, mas milhões de pessoas. O ditador soviético Joseph Stálin não perdeu tempo em alargar o controle da URSS sobre os países da Europa Oriental, que serviriam de “zona tampão” para prevenir um possível ataque por parte do Ocidente. A Europa ficou dividida por uma barreira que Winston Churchill chamou, em 1946, de Cortina de Ferro. Do lado americano, o presidente Harry Truman lançou, em 1947, sua famosa doutrina de contenção do comunismo em todo o mundo e em 1949 o Ocidente criou seu escudo político e estratégico, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Os dois blocos em que o mundo se dividiu, formados pelo confronto entre os antigos aliados contra a Alemanha de Hitler, se chocaram perigosamente em vários momentos durante essa fase crítica da Guerra Fria, enquanto procuravam reforçar suas alianças e sua influência. Em meados de 1948, um choque frontal: a URSS bloqueou o setor ocidental de Berlim, encravado no território da Alemanha Oriental, e os países ocidentais reagiram com uma bem-sucedida ponte aérea de suprimentos. Em 1949, o bloco da URSS ganhou uma importante vantagem, com a vitória dos comunistas chineses liderados por Mao Tsé-Tung. Em 1950, China e URSS ajudaram a Coréia do Norte a atacar a Coréia do Sul, que era apoiada pelos Estados Unidos. Seguiu-se uma guerra de três anos que foi um típico exemplo do confronto entre os dois blocos. Em 1955, a URSS reagiu à criação da Otan e instituiu o Pacto de Varsóvia, uma coalização de defesa com seus satélites da Europa Oriental. Em 1961, os comunistas alemães, com apoio de Moscou, construíram um muro para dividir os dois setores de Berlim, que se transformou no maior símbolo da Guerra Fria.
Em 1962, outro choque quase levou a uma guerra nuclear entre EUA e URSS. Moscou instalou mísseis de alcance médio em Cuba e Washington reagiu com um bloqueio a cargueiros soviéticos no Caribe. O líder soviético, Nikita Kruschev, acabou recuando e retirou os mísseis, diante da posição firme do presidente John Kennedy.
EUA e URSS continuaram disputando áreas de influência na África, Oriente Médio, Ásia e América Latina, saindo às vezes em defesa de seus protegidos, mas a sofisticação crescente dos arsenais nucleares dos dois gigantes tornava cada vez mais impensável uma guerra total. Nos anos 70, as duas superpotências, esmagadas pelo peso dos gastos com seus arsenais estratégicos, intensificaram o processo de desarmamento. O presidente americano Richard Nixon surpreendeu o mundo em 1972 com uma política de aproximação com a China e a URSS, que marcou uma nova etapa menos explosiva da Guerra Fria.
Acordos de desarmamento históricos entre a URSS e os EUA, nos anos 70 e 80, conduzidos paradoxalmente por presidentes americanos visceralmente anticomunistas como Nixon e Ronald Reagan, amenizaram ainda mais a Guerra Fria, embora focos de conflito continuassem, como a disputa em torno de países protegidos pela URSS: Cuba, Coréia do Norte, Vietnã, Nicarágua. Em 1979, a Guerra Fria recrudesceu com a invasão do Afeganistão por tropas da URSS, duramente condenada pelo Ocidente.
Em meados dos anos 80, um fenômeno político avassalador, o advento da política de perestroika, conduzida por Mikhail Gorbachev, na URSS, marcava o início do fim da Guerra Fria. Encorajados por Gorbachev, os países da Europa Oriental se livraram dos regimes comunistas. Em novembro de 1989, caía o símbolo desse confronto, o Muro de Berlim. E em 1991, um dos pólos dessa guerra surda de mais de 40 anos, a URSS, desmoronou. Emergiu o chamado pós-guerra fria, cenário confuso e inquietador, com o surgimento de potências regionais, algumas delas, paradoxalmente, em busca de armas nucleares, os instrumentos de morte em massa que as superpotências rivais construíram para sustentar seu confronto de quatro décadas.

Antônio Cabral é escritor e jornalista especializado em assuntos de segurança internacional.

6 comentários:

  1. bastante diversificado contéudo bem histórico porém muito extenso...

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  2. gostei muito do conteudo parabens

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  3. muuita coisa, tive que resumir um pouco,
    mais valeu a pena.
    Obrigada *-*

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  4. Me ajudou a estudar, melhor que meu livro didático

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