sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Mais obstáculos à paz no Oriente Médio

Quando se examina o sangrento e prolongado conflito entre Israel e os palestinos, a impressão é que a situação não para de se complicar. Após décadas de tentativas infrutíferas de acordos de paz, há uma situação de impasse sem precedentes. Do lado israelense, o novo governo do primeiro-ministro Benyamin Netanyahu defende posições que os palesti¬nos consideram inaceitáveis até para iniciar conversações. No campo palestino, há uma séria divisão entre as duas principais orga¬nizações: o grupo laico Fatah - que dirige a Autoridade Nacional Palestina (ANP), instalada na Cisjordânia - e o grupo islâmico Hamas - que controla a Faixa de Gaza.
O cotidiano de quem vive nessa parte do mundo é marcado por mortes e destruição. O último conflito aberto ocorreu no fim de 2008, quando Israel iniciou uma ofensiva à Faixa de Gaza, com fortes bombardeios e ataques terrestres, que causaram, em três semanas, mais de 1,4 mil mortes. A ofensiva agravou a situação de desastre humanitário existente no território por causa do bloqueio imposto por Israel, que impede a entrada ou saída de pessoas e mercadorias.

Problemas não resolvidos

Para entender essa situação, é preciso recuar no tempo. O marco desse conflito foi a criação do Estado de Israel, em 1948, que provocou a expulsão de milhares de palestinos das terras nas quais viviam. No ano anterior, a Organização das Nações Unidas (ONU) havia aprovado uma resolu¬ção apoiando a divisão da Palestina em um Estado judeu e outro árabe, que nunca se constituiu. A nova situação causou desestabilização em todo o Oriente Médio, que tem
como uma de suas expressões as guerras entre Israel e nações árabes vizinhas. No decorrer de décadas, houve vários choques armados (veja boxe acima).
Em 1993 ocorreram os Acordos de Oslo, mediados pelos Estados Unidos (EUA), que traçaram a meta de que a região contivesse dois Estados: um judeu (Israel) e um pales¬tino, esse último formado por duas porções de terras descontínuas - a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, sob ocupação israelense desde a Guerra dos Seis Dias (1967). Os mesmos acordos definiram a criação da ANP, para dar os passos rumo à organização institu¬cional dos palestinos. Nos últimos anos, essa é a perspectiva para a região que dá o tom nas negociações internacionais.
Desde o início das conversas, porém, pro¬blemas sérios deixaram de ser resolvidos. Um é a situação de Jerusalém. Os palestinos
defendem a idéia de que a parte oriental da cidade, ocupada pelos israelenses desde 1967, seja a capital de seu futuro Estado. Israel não aceita, pois considera a cidade inteira como a sua capital. Outro ponto fun¬damental para os palestinos não encontra acordo: o direito ao retorno dos que foram expulsos do território israelense. Com a criação de Israel, mais de 700 mil palestinos tornaram-se refugiados. Outra grande onda de deslocamentos ocorreu após a Guerra dos Seis Dias, quando outros 500 mil tiveram de deixar sua casa. Os refugiados, seus filhos e netos, somam agora quase 4,7 milhões de pessoas, segundo a ONU. Esse enorme con¬tingente vive precariamente em campos de refugiados. O governo israelense não aceita debater sua volta, pois o eventual regresso poria em xeque as próprias bases nas quais Israel se assenta.
Assentamentos israelenses

Embora Israel tenha se comprometido com os Acordos de Oslo, manteve a política de criar assentamentos nos dois territórios destinados ao futuro Estado palestino. Co¬lonos israelenses instalaram-se nos locais, expulsando os palestinos, e formaram povoações situadas era regiões de população árabe. Para parte dos religiosos judeus, essas áreas pertencem a seu país desde os tempos bíblicos.
Em 2005, o governo israelense decidiu abandonar a Faixa de Gaza. Retirou todos os 21 assentamentos ali existentes, além de quatro pequenas colônias no norte da Cisjordânia. Para muitos palestinos, a medida não era um recuo, mas apenas um meio de consolidar e ampliar os as¬sentamentos na Cisjordânia - área muito maior e mais próspera que a minúscula Faixa de Gaza. Existem cerca de 300 mil colonos israelenses na Cisjordânia e 180 mil em Jerusalém Oriental.
Além disso, desde 2002 Israel passou a isolar as populações palestinas da Cisjordâ¬nia, separando vilas e bairros uns dos outros por meio da construção de um enorme muro de concreto (veja mapa na pág. ao lado). A justificativa inicial era impedir a entrada de terroristas em Israel Na prática, o muro propiciou que o país anexasse áreas palestinas e hoje restringe a circulação de pessoas e mercadorias pela região.

Cisão entre palestinos

Nessa situação já difícil, o movimento fundamentalista islâmico Hamas obteve estrondosa vitória, em 2006, nas eleições parlamentares palestinas, e indicou Ismail Haniyeh para primeiro ministro da ANP. Isso teve graves conseqüências, pois os EUA, a União Européia e Israel recusaram-se a manter conversações com um governo che¬fiado por uma organização que consideram terrorista. Criou-se um entrave a qualquer tipo de entendimento entre as partes.
Os Acordos de Oslo haviam estabelecido que o governo israelense deveria transferir à ANP os impostos e as taxas cobrados dos produtos importados que entram pelos portos de Israel em direção aos territórios palestinos. Com a vitória do Hamas, Israel deixou de repassar esses valores, como for¬ma de asfixiar o seu governo. As potências ocidentais também suspenderam o envio de ajuda financeira aos palestinos.
Com isso, o Hamas passou a ser pressio¬nado internacionalmente a reconhecer o Es¬tado de Israel, a abandonar a luta armada e a aceitar os acordos assinados anteriormente entre israelenses e palestinos. O grupo islâ¬mico não concordou, pois pretende criar um Estado islâmico em toda a Palestina.
Ao mesmo tempo, as divergências entre os próprios palestinos se ampliaram, e as relações entre o Fatah e o Hamas, que não eram boas, deterioraram-se de vez. Os dois grupos passaram a se enfrentar militar-mente, e, depois de inúmeras mortes, uma cisão consumou-se em junho de 2007.
Em clima de guerra civil, o Hamas ex¬pulsou o Fatah da Faixa de Gaza e passou a controlar a região. O Fatah manteve-se na Cisjordânia, onde o presidente da ANP, Mahmud Abbas, constituiu um novo gover¬no, tendo como primeiro ministro Saian Fayyad. Esse governo foi logo reconhecido por Israel e pelas potências ocidentais. Os EUA suspenderam o embargo financeiro, e Israel descongelou os valores de impostos e taxas que estavam retidos.

Netanyahu no governo

Em novembro de 2007, o governo norte-americano patrocinou uma conferência so¬bre o Oriente Médio em Annapolis (EUA), com o presidente da ANP, Mahmud Abbas, o primeiro-ministro israelense, Ehud 01-mert, e representantes de quase 50 países e organizações. No documento final, israe¬lenses e palestinos comprometeram-se a tentar um acordo de paz até o fim de 2008, que assegurasse a existência de dois Esta¬dos. Mais uma vez não houve avanços.
O governo de Olmert enfrentava sérios problemas internos. Além de sofrer acu¬sações de corrupção, o primeiro-ministro israelense era criticado por causa da ofensiva militar contra o Líbano em 2006. O ataque, que visava ao grupo xiita Hez-bollah, foi considerado um fracasso.
Nas eleições parlamentares, em feve¬reiro de 2009, nenhum partido obteve maioria significativa. O mais votado foi o Kadima, de Olmert, mas obteve apenas 28 cadeiras de um total de 120. O direitista Likud veio em seguida, com 27, e o ultra-nacionalista Nossa Casa Israel conseguiu 15. Isso obrigou a uma intensa negociação para a formação do governo. O Kadima, com a maior bancada, acabou na oposição, já que o líder do Likud, Benyamin Ne¬tanyahu, costurou uma aliança ampla.
Condições para a paz

O novo governo, diferentemente do ante¬rior, não apoia a política dos "dois Estados" negociada em Oslo. Procura, então, trocar o foco da questão palestina para o Irã, acu¬sando o governo iraniano de ser a principal ameaça à segurança da região, por causa de sua suposta intenção de construir armas atômicas (veja na pág. 70). A situação cria certo atrito com os EUA, historicamente os principais aliados e financiadores de Israel. A política externa do presidente Barack Oba¬ma, diferentemente da de seu antecessor, George W. Bush, prevê a abertura de diálogo com países considerados hostis, como Irã e Síria, com o que Israel não concorda.
Em maio, numa conversa entre os dois governantes, em Washington, Obama rea¬firmou apoio à "solução com dois Estados" e pressionou Netanyahu a interromper a construção de mais assentamentos nos territórios palestinos. No mês seguinte, Netanyahu anunciou oficialmente, em um discurso de grande impacto, as suas pro¬postas para um acordo de paz: exige que
o futuro Estado palestino seja "desmilitarizado", não possa controlar suas fronteiras nem seu espaço aéreo. Além disso, deve reconhecer de forma clara Israel como "um Estado judeu" e não firmar acordos militares com Irã nem com o grupo li¬banês Hezbollah. Com relação à reivindi¬cação de direito ao retorno dos palestinos, o primeiro-ministro disse que é algo a ser resolvido pela comunidade internacional "fora das fronteiras israelenses". Quanto aos colonos judeus na Cisjordânia, sugeriu que, embora não estejam previstos novos assentamentos, os existentes poderão cres¬cer. Por fim, afirmou que Jerusalém deve ser "a capital indivisível" de Israel.
Tais condições, entretanto, são inacei¬táveis para os palestinos. De acordo com o principal negociador da ANP, Saeb Erakat, "Benyamin Netanyahu fala de negocia¬ções, mas não nos deixa nada a negociar. Ele anuncia uma série de condições e de restrições que tornam impossível um Estado palestino viável, independente e soberano". Para um dos as¬sessores de Abbas, Yasser Abed Rabbo, o governante "empregou a expressão 'Estado palestino', mas quer um 'protetorado isra¬elense'". O porta-voz de Oba¬ma, porém, elogiou o discurso, considerando-o um "importante passo".
Nesse quadro complexo, um plano de paz lançado em 2002 pela Arábia Saudita, e apoiado pelos 22 países da Liga Árabe, tem sido citado como base para um possível entendimento. A proposta prevê a retirada de Israel dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias e a aceitação de um Estado pa¬lestino, na Faixa de Gaza e Cisjordânia, tendo Jerusalém Oriental como capital. Em troca, os 22 países reconheceriam formalmente Israel como Estado judeu. Um representante do governo Obama chegou a manifestar apoio ao plano como base para um acordo. Resta saber se os desenvolvimentos mais recentes dão chance a que a proposta seja seriamente levada em conta.

APESAR DAS PROMESSAS DE AUXÍLIO, FAMÍLIAS DE GAZA VIVEM NA MISÉRIA
Ethan Bronner
Dezenas de famílias ainda moram em tendas ernrneio a construções destruí¬das e tubulações enferrujadas. Com a proibição da entrada de material de construção na Faixa de Gaza, alguns estão construindo casas de tijolos de barro cru. Salvo comida e remédios, tudo precisa ser contrabandeado do Egito por túneis subterrâneos no deserto. (...)
Quatro meses após Israel ter lançado uma guerra contra o território para acabar com o lançamento de foguetes do Hamas, e dois a nos depois que o Ha mas passou a controlar integralmente essa faixa costei¬ra, Gaza parece uma ilha à deriva. (...)
O território não conta com praticamente nada em termos de uma economia funcional, a não ser comércio básico e atividades agrícolas. A educação decli¬nou terrivelmente, e os serviços médicos também estão caindo. (...)
O objetivo israelense é manter a po¬pulação da Faixa de Gaza em um mero nível de subsistência, de forma que a sua situação contraste com a da Cisjordânia, que em tese se beneficia da ajuda eco¬nômica e do desenvolvimento político. Dessa forma, os indivíduos que apóiam o Hamas perceberiam o seu erro. Po¬rém, esse plano não tem transcorrido bem,em parte porque a Cisjordânia sob ocupação israelense não é exatamente um quadro paradisíaco, e ainda porque o Hamas parece a cada ano estar mais consolidado no poder em Gaza (...).

The New Vork Times, 29/5/200

Fonte Atualidade vestibular – editora Abril

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