sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Novos Ares para o Oriente Médio

Universidade do Cairo, no Egi¬to, foi o palco, em junho, de um aguardado discurso do novo presi¬dente dos Estados Unidos (EUA), Barack Obama. Em sua fala, o governante norte-americano propôs "um novo começo" nas relações entre os EUA e os muçulmanos (seguidores da religião islâmica), que re¬presentam a grande maioria da população no Oriente Médio, e manifestou a vontade de pôr fim à situação de "desconfiança mútua". Citou trechos do Alcorão, o livro sagrado do islamismo, e afirmou que os EUA não estão em guerra contra o Islã. Entre os temas mais importantes para a região, Obama reafirmou o apoio nor¬te-americano a Israel, mas defendeu o direito de a Palestina existir. Até mesmo no caso do Irã, cujo governo é considerado hostil aos EUA, ele julga que o país tem o direito de utilizar energia nuclear para fins pacíficos ou civis.
A diferença em relação ao presidente anterior, George W. Bush, é significativa. Obama não pronunciou nenhuma vez as palavras "terror" ou "terrorismo", a marca registrada de seu antecessor. A mudança de tom ganhou aplausos no auditório da universidade e elogios de várias lideranças de países árabes.
Ao mesmo tempo, essas lideranças dizem esperar ações concretas de Obama que com-provem uma transformação efetiva Apolítica de "guerra ao terror" de Bush fez crescer, entre as populações do Oriente Médio, um sentimento generalizado de hostilidade contra os EUA. Muitos analistas avaliam que isso contribuiu para o aumento da influência de grupos fundamentalistas islâmicos, que eram vistos como os maiores opositores a Bush. Por isso, sua postura teria sido prejudicial aos interesses norte-americanos.
Obama, ao buscar atrair a simpatia da opinião pública e dos governantes locais, procura soldar alianças regionais que defendam de modo mais eficaz a política norte-americana. Para conseguir isso, não hesita em dirigir-se até mesmo a governos hostis, como o do Irã e o da Síria.

Região de conflitos

Berço de civilizações milenares, o Oriente Médio é a região do mundo que concentra o maior número de conflitos por quilômetro quadrado. Não por acaso, tem sido a prio¬ridade da política externa de Obama em seus primeiros meses de governo.
Fatores políticos e econômicos explicam a importância do Oriente Médio no mundo contemporâneo. A área abriga as maiores reservas conhecidas de petróleo e gás do planeta, que, nos últimos 100 anos, se tor¬naram chaves para a economia mundial. Quase dois terços de todas as jazidas do mundo estão concentrados ali. As disputas pelo controle dos recursos petrolíferos estiveram na origem de muitas interven¬ções armadas de potências estrangeiras, principalmente a França, o Reino Unido e os EUA. Uma das razões para a ocupação do Iraque pelos EUA, em 2003, está nesse interesse pelas riquezas naturais do país.
O grande acontecimento que impactou a região no século XX foi a fundação do Estado de Israel, em 1948.0 novo país, ao ocupar o território da Palestina, desalo¬jando milhares de árabes palestinos que ali viviam, criou uma situação de tensão que perdura até hoje.
Outras disputas fazem parte des¬se quadro geral. A Arábia Saudita, que tem população de maioria sunita (uma das vertentes do islamismo), opõe-se ao crescimento de influência do Irã, de maioria xiita (outro ramo do islamismo). O governo saudita busca exercer um pa¬pel de peso nas nego¬ciações de paz entre Israel e os palestinos.
De outro lado, o Irã tem ascendência sobre partidos xiitas que estão no governo do Iraque e fornece ajuda financeira a grupos como o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, nos territórios palestinos.
Nos últimos anos, ganhou relevância a questão do programa nuclear do Irã, pois as potências ocidentais acreditam que o país dá passos largos para construir bombas atômicas. Toda essa situação conflituosa está relacionada ainda ao que acontece nas regiões limítrofes ao Oriente Médio, como a Ásia Central, onde se situam Afeganistão e Paquistão
Saída do Iraque

No Iraque, ocupado desde 2003 por forças lideradas pelos EUA e pelo Rei¬no Unido, a situação de caos persiste, embora a violência tenha diminuído nos últimos anos. De acordo com o governo iraquiano, a guerra causou a morte de aproximadamente 5,7 mil pessoas em 2008, bem menos que os 16,2 mil mortos no ano anterior. Ainda assim, há muita incerteza sobre o futuro do país.
Obama anunciou que as missões de combate dos EUA no Iraque se encer¬rarão em agosto de 2010 - três meses depois do prazo em que havia prometido,
a campanha eleitoral, retirar as tropas. A maior parte dos 142 mil soldados norte-americanos no país sairá do território iraquiano. Ficarão entre 35 mil e 50 mil militares, com a tarefa de treinar as forças de segurança do país. Esse último grupo deve retornar aos EUA até dezembro de 2011. A saída do Iraque será acompanha¬da de um reforço significativo das tropas norte-americanas no Afeganistão.
Analistas avaliam que a retirada dos norte-americanos não deverá eliminar a violência, já que o país está devastado e as disputas sectárias (entre xiitas e sunitas) se acirraram. Há sérios problemas eco¬nômicos, com alto índice de desemprego, e a infraestrutura é precária,
Um dos problemas difíceis de resolver é o da estruturação das forças de segurança iraquianas. A redução da violência nos últimos dois anos teve como uma das causas a colaboração dos militares dos EUA com as milícias Al-Sahwa (Despertar), majoritariamente sunitas, que se opõem ao grupo terrorista Al Qaeda (também sunita). Os integrantes das milícias passaram a ser pagos pelos norte-americanos para policiar os bairros e manter a ordem. Agora, porém, esse grupo paramilitar - ou seja, um agru-pamento armado, mas não oficial - está sendo incorporado às forças regulares de segurança do Iraque. Os salários da polícia, no entanto, são muito menores e têm sido pagos com atraso, o que cria dificuldades para a incorporação do grupo.
Além disso, como os milicianos se contrapõem aos xiitas, que são maioria no governo do Iraque, o fato poderá ser um motivo para instabilidade e acirra¬mento das divisões.

Eleições ao Líbano

No Líbano, as eleições parlamentares de junho foram vencidas pela coalizão governista (chamada de 14 de Março), integrada pelo movimento sunita Futuro, de Saad Hariri, filho do ex-primeiro-ministro assas¬sinado Rafik Hariri, e apoiada pelas potências ocidentais. Essa coligação conquistou
71 cadeiras no Parlamento, contra 57 para a coalizão 8 de Março, formada pelos grupos xiitas Hezbollah e Movimento Amai, além do grupo cristão maronita Movimento Pa¬triótico Livre, do general Michel Aoun.
Duas semanas antes das eleições, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, em visita a Beirute, a capital libanesa, afirmou que o futuro da ajuda norte-americana ao país dependia do resultado do pleito. Era uma referência à possibilidade de vitória do Hezbollah, que tem existência legal no Líbano, mas é considerado um grupo terrorista pelos EUA e por Israel. O Hezbollah acusou os EUA de "clara intervenção nos assuntos do Líbano".
A história do Líbano está vinculada à da Síria, que continua a considerá-lo parte de seu território, a "grande Síria", que teria sido perdida por causa da ação dos coloni¬zadores franceses. O país passou por uma traumática guerra civil entre 1975 e 1990, responsável por tensões presentes até hoje. Após a guerra civil, a Síria começou a dominar de fato a vida política da nação, mantendo soldados no território libanês durante mais de uma década.
O assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, identificado com o movimento contrário à presença da Síria, indignou a população e acabou provocando uma reviravolta política em 2005. Em conseqüência, as tropas sírias tiveram de se retirar, e as elei¬ções parlamentares consagraram uma maioria anti-Síria, que indicou como primeiro ministro Fouad Siniora. Nas mesmas eleições, a coalizão liderada pelo HezboIIah teve bom resultado e ingressou no gabinete ministerial.
Em 2006, Israel atacou o Líbano, pro¬curando aniquilar o Hezbollah, mas não alcançou seu objetivo. A milícia xiita sentiu-se fortalecida e começou a exigir poder de veto nas decisões governamen¬tais. Em seguida, saiu do governo e passou a organizar sucessivos atos de protesto.
Em maio de 2008, reagindo contra me¬didas de Síniora que procuravam limitar sua ação, o HezboIIah iniciou confrontos armados contra forças do governo. De modo relativamente fácil, o grupo ocu¬pou a zona oeste de Beirute. Depois de seis dias de violência, o governo recuou, retirando as medidas que motivaram a reação do HezboIIah. A Liga Árabe patrocinou em seguida um acordo, discutido no Catar, a partir do qual se chegou a um governo de união nacional.
Após as eleições deste ano, acredita-se que pode ser formado novo governo de união nacional, mas com o HezboIIah em posição de menor destaque

Diálogo com a Síria

Os Estados Unidos reiniciaram oficial¬mente, em junho, o diálogo com a Síria, que está há anos na lista de países que, segundo os norte-americanos, patroci¬nam o terrorismo. Apesar dessa abertura, o próprio governo Obama renovou por mais um ano as sanções contra a nação.
O governo sírio nega as suspeitas de envolvimento no assassinato de Hariri e refuta as acusações de que desenvolva um programa militar nuclear. Seu principal objetivo é reconquistar a soberania sobre as Colinas de Golã, ocupadas por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967) e anexadas unilateralmente em 1981. Situam-se aí nas¬centes de rios, entre as quais a do Jordão, o mais importante dessa região desértica.
Várias negociações para a entrega das colinas tiveram início, mas os dois paí¬ses não chegaram a um acordo sobre a desmilitarização da área e o domínio das fontes de água. Israel exige controlar o local próximo às nascentes.
Em maio de 2008, anunciou-se a ne¬gociação de um acordo de paz amplo, intermediado pela Turquia, que poderia abranger a devolução das Colinas de Golã. As conversas foram interrompi¬das depois que Israel iniciou os ataques contra a Faixa de Gaza, em dezembro.
A ação dos EUA no Afeganistão e no Paquistão
Uma nova sigla passou a circular nos meios políticos e militares internacionais: Afpak. É a maneira pela qual o governo dos Estados Unidos (EUA) decidiu designar a região do Afeganistão e do Paquistão, sinalizando que os dois países vivem uma situação a ser enfrentada de forma conjunta. Na área dos dois lados da fronteira entre ambos abrigam-se terroristas islâmicos, como os membros da rede Al Qaeda. Além disso, o grupo fundamenta lista islâmico Taliban, que governava o Afeganistão até 2001, também atua nos dois territórios e exerce influência no Paquistão, onde controla vários locais,
A situação dos países, porém, é distinta. As forças dos EUAeda Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ocupam o Afega¬nistão desde 2001 - o objetivo inicial era capturar Bin Laden, acusado de planejar os ataques terroristas aos EUA. O governo foi derrubado, mas Bin Laden não foi achado. Pior que isso: de lá para cá, o Taiiban se reorganizou e tem realizado ações e atentados, o que amplia a instabilidade no país.
O Afeganistão conta com um Parlamento e um presidente, Hamid Karzai, mas o governo mal controla a capital, Cabul. Estima-se que haja 1,2 mil facções étnico-tribais armadas, comandadas por "senho¬res da guerra"- chefes militares regionais. Estima-se também que o Taliban esteja presente em 70% do país.
A ofensiva norte-americana causa mortes e ferimentos em civis, provocando hostilidade local à presença das forças estrangeiras. Ao mesmo tempo, a economia afegane está destroçada, e o país vive grande desagre¬gação social. É o maior fornecedor mundial de ópio - droga extraída da papoula, com a qual se produz ainda heroína.
A estratégia do presidente Obama para a região aponta para três direções: o reforço da presença de soldados norte-americanos no país; a tentativa de atrair membros moderados do Taliban para uma negociação; e maior participação de países vizinhos e organismos m u It i laterais, como a ONU, na busca de soluções. Os EUA enviarão para lá pelo menos mais 21 mil militares (chegando a 47 mil). Somados aos de outros países da Otan, serão 82 mil soldados estrangeiros em território afegane.
O Paquistão, cujo governo é aliado dos Estados Unidos, vive uma situação de de¬sagregação. A crise interna atinge enorme proporção: em abril, mais de 2,5 milhões de pessoas foram obrigadas a deslocar-se de sua casa para fugir dos combates entre o Exér¬cito paquistanês e militantes do Taliban na região do Vale do Swat, no noroeste do país. Os fundamentalistas tentam ampliar sua influência explorando politicamente o des¬contentamento de setores com a colaboração entre o governo paquistanês e o dos EUA.
O que é terrorismo?
O que é, afinal, o terrorismo? A resposta não é simples nem consensual. Pode-se dizer, como definição mínima, que é o uso sistemá¬tico de violência para criar um ambiente de medo, com objetivos políticos. Mas a palavra pode facilmente ser utilizada para lançar um rótulo negativo contra inimigos. Israel, por exemplo, chama de terroristas diversos grupos palestinos, que respondem acusando Israel de praticar terrorismo de Estado.
Histórica mente, atos que seriam enquadra¬dos como terroristas f ora m considerados heróicos quando correspondiam à luta contra a opressão de uma ditadura ou pela libertação nacional. É o caso da Resistência Francesa, que combateu a ocupação nazista durante a II Guerra Mundial (1939-1945), praticando atos de terror durante anos.
Por causa dessas considerações políticas, é difícil que, em fóruns como a ONU, haja consenso para designar algum grupo como terrorista. Nesse particular, o que distingue a rede Al Qaeda, de Osama bin Laden, é que o grupo consolidou o uso indiscriminado
da violência , na esfera internacional, sem distinção social, política, de nacionalida¬de nem de religião. Os atentados de 11 de setembro de 2001, por exemplo, contra os EUA, mataram cidadãos comuns de vários países, incluindo árabes.
Um aspecto atual dessa questão é que a retórica do ex-presidente dos EUA George W. Bush levou muitos a associar o terrorismo à religião islâmica. Mas, na verdade, grupos fundamentalistas existem em todas as reli¬giões: são aqueles que enxergam nos textos sagrados de sua crença a única orientação possível para a organização do Estado e da sociedade. É uma posição obscurantista, que recusa a democracia e se opõe à perspectiva secular adotada desde a Revolução Francesa (1789), quando os negócios de Estado se separaram das convicções religiosas.
A crença no Islã, tal como no cristianismo ou no budismo, não deve ser associada a nenhum ato de violência. Todas as crenças religiosas merecem respeito, tanto no âm¬bito individual quanto no coletivo.

Fonte Atualidade vestibular – editora Abril

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